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Data da Publicação: 28/06/2012 - 12h00
Postado em Notícias

28/06/2012 12h00 - Postado em Notícias

O mel que mudou o Vale do Ribeira

Projeto iniciado há três anos leva capacitação e equipamentos para apicultores de região carente do Paraná

Um projeto desenvolvido no Vale do Ribeira tem tornado a vida de moradores da região um pouco mais doce. Com o nome de Célula do Mel, a iniciativa levou equipamentos e capacitação até famílias que estavam na linha da pobreza e transformou o grande volume de abelhas no município em fonte de renda extra. Em três anos, o mel produzido em Adrianópolis (cidade que está no Vale) saltou de 950 para 7 mil quilos e hoje alimenta as necessidades de 22 famílias de apicultores.

O projeto surgiu em 2009 pelas mãos de Gilberto Oiti, comerciante de Curitiba que, desde 2003, prestava auxílio às pessoas de baixa renda do Vale do Ribeira. Em 2004 foi criada a organização da sociedade civil de interesse público (Oscip) S.O.S Ribeira, que faz o trabalho social com as famílias. "Chegou um momento em que os parceiros nessas atividades acharam por bem reclamar: ‘Gilberto, você só dá o peixe e não ensina a pescar’", conta. Com o auxílio do Rotary Club do bairro Guabirotuba, Gilberto encomendou uma pesquisa com agrônomos e descobriu, então, a existência de abelhas do tipo europeia e de um grande número de pequenos apicultores na região.

Marcelo Andrade/Gazeta do Povo

 
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João Pereira conseguiu comprar um celular com o dinheiro que ganhou vendendo mel
Cenário
Região é uma das mais pobres do Brasil e está na divisa do Paraná com São Paulo

O projeto Célula do Mel é desenvolvido no distrito de Tatupeva, localizado no município de Adrianópolis, divisa entre Paraná e São Paulo. A cidade faz parte de uma das regiões mais pobres do Brasil, conhecida como Vale do Ribeira, que é constituída também por Bocaiuva do Sul, Cerro Azul, Doutor Ulysses, Itaperuçu, Rio Branco do Sul e Tunas do Paraná.

Segundo dados do Ipardes, é nessa região que estão os municípios paranaenses com os menores Índices de Desenvolvimento Humano (IDH), medido a partir de dados como a expectativa de vida ao nascer, PIB e índice de educação. Doutor Ulysses, cidade vizinha de Adrianópolis, está na penúltima posição do estado, com 0,627. Já Itaperuçu, com 0,675, e Cerro Azul, com 0,684, estão na posição 381 e 372 respectivamente. A capital, apesar da proximidade da região, está no topo do ranking e tem IDH de 0,856.

Realidade

Em Adrianópolis, a população, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) de 2010, gira em torno de 6,3 mil pessoas, das quais 3.713 estão em situação de pobreza, uma taxa de 43,44% diante dos 8,61% de Curitiba. Em todo o município, apenas 1.131 imóveis possuem abastecimento de água pela Companhia de Saneamento do Paraná (Sanepar) e 16, 82 % da população acima de 15 anos é analfabeta.

O professor de Saúde Coletiva da Universidade Federal do Paraná (UFPR) Guilherme Albuquerque é um dos envolvidos em projetos de extensão na região e conta que a situação é agravada pelo descaso do poder público. "É um lugar onde as pessoas são muito pobres, mas os recursos naturais são bastante ricos. O que ocorre é que por muitos anos a população ficou esquecida. O SUS [Sistema Único de Saúde], por exemplo, falha até hoje e só começa a se mexer por causa de pressões externas." (EM)

22 famílias
da região do Vale do Ribeira trabalham com apicultura dentro do projeto e cerca de 60 já estão capacitadas aguardando os recursos para a montagem de novas caixas de abelhas. O quilo do mel é vendido a R$ 6 e é embalado e comercializado em Curitiba. Com o projeto Célula do Mel, os apicultores aumentaram a renda mensal de R$ 400 para R$ 1 mil.
"Fomos atrás da Asso­ciação Paranaense do Apicultor (APA) e eles nos deram todo o apoio em termos de conhecimento. Depois descobri a existência do Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar/PR), que levou professores até a região para ensinar tudo sobre abelhas e mel para aquelas pessoas", conta Gilberto sobre o início dos trabalhos. Com o apoio do Rotary, foram comprados macacões, botas, luvas, caixas para as abelhas e a centrífuga. Não deu outra. A produção começou.

No primeiro ano do projeto, apesar de mais famílias estarem capacitadas, apenas 12 apicultores puderam montar seus apiários segundo os padrões da APA. Entretanto, a produção chegou a 950 quilos, motivando a criação de outros mais. "Percebemos que houve uma empolgação por parte dos apicultores com esse resultado e um incremento de habilidades, já que todo mês eles recebem cursos e capacitações. Com isso, no ano seguinte o rendimento foi de 4 mil quilos. Neste ano já tivemos uma produção bem superior, de 7 mil quilos."

Perfil

Apesar de serem apicultores antes do projeto Célula de Mel, as famílias não tinham nenhum tipo de conhecimento prático sobre a criação de abelhas, nem os equipamentos de segurança necessários. "Os apicultores estavam na linha da miséria e hoje estão na linha da pobreza para cima. Eles são beneficiários do Bolsa Família e, em muitos casos, sustentavam cinco pessoas ou mais com R$ 400 mensais. Atualmente ganham, em média, R$ 1 mil por mês", afirma Gilberto.

Ter um apiário não era bem o sonho de Antonio Lima, de 64 anos, e de Rosa Lima, de 60 anos, aposentados que trabalham como caseiros em uma chácara em Adrianópolis. Há alguns anos o casal resolveu comprar um sítio perto da casa que cuidam, e, por indicação de uma vizinha, o filho do casal, Sérgio, fez o curso oferecido pelo Senar/PR para ajudar a pagar o sítio. Entretanto, meses depois Sérgio faleceu e Antonio decidiu continuar o trabalho que o filho começara. Hoje eles têm 11 caixas e guardam o dinheiro da venda do mel em uma poupança. "Com esse dinheiro a gente compra bicho e semente para o sítio. E cuidar das abelhas também é um passatempo pro Antonio", conta Rosa.

Famílias têm acesso ao que era sonho

Para quem mora na cidade grande, ter celular, carro popular, televisão, geladeira e fogão elétrico são coisas tão comuns que passam despercebidas no dia a dia. Mas, para algumas famílias de Tatupeva, distrito de Adrianópolis onde é realizado o projeto Célula de Mel, até pouco tempo esses bens eram só um sonho, justamente porque tudo o que conseguiam de rendimento ia para a própria sobrevivência.

A vida de João Pereira, mais conhecido como João Goiano, era assim. Antes da chegada da Célula do Mel, ele e a mulher, dia sim dia não, recebiam um atravessador em casa querendo comprar mel a "preço de banana". A produção era rústica. Tendo muito mel em casa e nenhum destino, quem passasse pela casa da família levava fácil o produto. "A gente guardava aqui em casa. Aí, chegava alguém querendo comprar e, para liberar, com R$ 4 ele levava", conta João. A situação mudou após os cursos feitos no Serviço Nacional de Aprendizagem Rural (Senar). O incentivo veio por intermédio do comerciante Gilberto Oiti, que passou a trazer o mel produzido na casa de João para Curitiba, pelo valor de R$ 6. O dinheiro hoje é todo depositado na conta poupança da família e, entre um móvel e outro comprado, o telefone celular é o mais festejado.

Beneficiados

Hoje são atendidas 22 famílias de apicultores na região e cerca de 60 já estão capacitadas aguardando os recursos para a montagem de novas caixas de abelhas. Por enquanto, o mel extraído em Adrianópolis é transportado até Curitiba, onde é embalado, certificado e comercializado. A renda é revertida para cobrir os custos desse processo e dividida entre os apicultores. Segundo o criador do projeto, o conceito de autossustentabilidade é muito bem aplicado na iniciativa. "Teve um começo, mas não vai ter fim. Mesmo que eu desapareça as famílias sabem como fazer para tirar o mel e elas estão lá, na fonte", diz Gilberto.

Fonte:  Ellen Miecoanski e Angélica Favretto, especial para a Gazeta do Povo

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