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Data da Publicação: 26/08/2016 - 15h40
Postado em Destaques, Pecuária de Leite

26/08/2016 15h40 - Postado em Destaques, Pecuária de Leite

Leite: hora de mudar a página

Ouça a entrevista com a engenheira-agrônoma Maria Silvia Digiovani, do DTE da FAEP, sobre o panorama da atividade leiteira no Paraná

Desde o ano passado a atividade leiteira vive momentos de incerteza e imprevisibilidade. Em 2015, o preço médio pago aos produtores brasileiros atingiu o menor valor dos últimos cinco anos. Uma conjuntura de baixo consumo e alta nos custos de produção tirou muitos produtores da atividade e fez laticínios reverem suas estratégias. Esse quadro começou a melhorar em 2016. Onde alguns encontram adversidades intransponíveis, para outros, o que surgem são novas oportunidades de negócio. Enquanto nas principais regiões produtoras do planeta o leite está sobrando, no Brasil ele segue o fluxo contrário, passando por um momento de retração na oferta. O motivo desse descompasso e seus possíveis desdobramentos está explicado no “Panorama de mercado das principais atividades da agropecuária paranaense”, extenso levantamento produzido pelo Departamento Técnico-Econômico (DTE) da FAEP, que, dentre outras atividades, analisa a cadeia dos lácteos no Estado.

Segundo a engenheira-agrônoma Maria Silvia Digiovani, responsável pelo panorama do leite, contribuíram para o aumento da oferta mundial, de um lado, o fim das cotas de produção na União Europeia (UE) e as boas condições climáticas na Oceania e, de outro lado, a saída da China deste mercado e o embargo da Rússia às importações de lácteos da UE, Estados Unidos (EUA) e Austrália. “Os países em desenvolvimento, grandes importadores de leite, estão buscando produzir internamente. Com isso a tendência é diminuir um pouco o comércio internacional”, avalia.

O resultado desta combinação é o aumento dos estoques mundiais e a redução dos preços das commodities lácteas aos menores patamares dos últimos anos. No ranking mundial do leite, o Brasil é o quinto colocado, atrás da UE, EUA, Índia e China. Em 2015 a produção brasileira de leite inspecionado foi de 24,5 bilhões de litros, volume 2,8% menor do que o produzido no ano anterior. As principais regiões produtoras são Sul e Sudeste, responsáveis por 69% do leite brasileiro. Em 2016 a produção continuou em queda. No primeiro trimestre do ano a captação foi de 5,86 bilhões de litros, volume 4,5% a menos que o registrado em igual período de 2015 e 6,8% menor que a produção do trimestre anterior.

Dois fatores principais levaram a esta queda na produção. A alta expressiva no preço do milho usado na ração dos animais, ocasionada por questões climáticas durante a safra, e a redução no consumo dos produtos lácteos, um reflexo da atual crise econômica, que tira da população seu poder aquisitivo. De acordo com o banco holandês Rabobank, o consumo per capita de leite no Brasil caiu de 173,06 litros (equivalente leite) em 2015, para 172,02 litros em 2016.

Há 40 anos na atividade leiteira, o produtor Nelson Rost, de Pato Branco, conta que nunca trabalhou com um custo de produção tão alto. “Tá tudo muito caro, principalmente a ração”, avalia. Com uma produção média diária de 1.200 litros por dia, ele destina metade desse volume para um laticínio e a outra metade ele mesmo empacota e comercializa na região com a marca “Holanda”. “Com a ração nesse preço, quem trabalha com vaca de leite está no vermelho. Nós conseguimos nos manter porque entregamos direto para o consumidor”, avalia.

De maio de 2015 a maio de 2016, o preço do milho aumentou 106% no Paraná, saindo de R$ 19,41/saca para R$ 39,98. De janeiro a maio de 2016 o aumento foi de 35%. Os gastos com alimentação dos animais correspondem a cerca de 40% do custo de produção na atividade leiteira.Para Rost, o lado bom deste cenário de queda na produção interna brasileira é que, com o leite escasso no mercado, o preço tende a subir. “Quando o leite de caixinha (longa vida) estava R$ 4, o que eu entrego direto eles pagavam R$ 3,45”, lembra, destacando que em condições normais vendia seu produto a um preço médio de R$ 2,70 o litro. O leite Holanda é distribuído nos mercados, policlínicas e padarias do município e também é captado para a merenda escolar.

Preços em alta
De acordo com o panorama econômico da FAEP, em 2015 o preço médio líquido pago pelo litro de leite no Brasil foi de R$ 0,9529. Trata-se do valor mais baixo dos últimos cinco anos, fruto da queda de renda da população que diminuiu a demanda por produtos lácteos, principalmente itens mais elaborados como queijos e iogurtes.

No início de 2016 essa tendência se inverteu, com os preços reagindo à pressão da baixa oferta dos produtos. Entre janeiro e julho deste ano, o preço pago ao produtor teve um aumento de 41,3%, passando de R$ 1,0615 para R$ 1,4994 por litro (preço médio bruto com impostos e frete). “Há 60 dias estávamos recebendo R$ 1,40. De uma hora para outra o preço pago foi para R$ 2,00, foi um aumento muito bom”, observa o produtor Leoci Scalabrin, de Pato Branco.

Segundo ele, depois de uma temporada de preços bastante deprimidos, houve uma alta significativa nos preços em meio à escassez do produto. Neste cenário, é comum que o leite seja disputado pela indústria, favorecendo o poder de negociação dos produtores. No caso de Scalabrin, até cerca de um mês atrás ele entregava a produção a um laticínio com o qual já trabalhava há anos. Porém, recentemente outra empresa ofereceu R$ 0,60 a mais por litro de leite e o produtor trocou de parceiro em busca de melhores ganhos.

Apesar disso, quem pensa que a situação dos produtores ficou mais confortável se engana, pois o alto custo da ração continuou minando os ganhos neste ano. Em junho de 2015 eram necessários 24,04 litros de leite para adquirir uma saca de 60 quilos de milho. Em junho de 2016 eram necessárias 36,74 litros para comprar a mesma saca de milho, uma alta de 52,85% de um ano para outro. O mesmo ocorreu (em menor grau) com as trocas por farelo de soja (alta de 17,80% em um ano) e por mistura de milho e soja (alta de 34,68%).

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Título da Postagem: Leite: hora de mudar a página

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