Logotipo Sistema FAEP

Data da Publicação: 25/03/2020 - 08h00
Postado em Agronegócios, Destaques, Notícias

25/03/2020 08h00 - Postado em Agronegócios, Destaques, Notícias

Entrevista: “É impossível produzir em larga escala sem aplicação aérea”

Ulisses Antuniassi, professor e pesquisador da Unesp, aponta que protocolos garantem segurança na pulverização por aviões

A agricultura brasileira é destaque mundial. Não é para menos. Somos o maior produtor internacional de soja e o segundo maior produtor de grãos. Tudo isso, em um clima tropical, mais suscetível a pragas que podem acometer as lavouras e afetar a produtividade.

Por isso, o uso racional de defensivos agrícolas é tão importante para a nossa agricultura. Para Ulisses Antuniassi, todo esse bom desempenho no campo está diretamente relacionado a uma ferramenta imprescindível: a pulverização de agroquímicos por meio de aviões. Afinal, este método permite manter o controle de longas áreas e de forma rápida.

“Se você falar de algodão, soja, milho e cana-de-açúcar e de alguns itens da fruticultura, é impossível produzir sem usar defensivos em larga escala. Aí, fica impossível produzir sem avião”, diz Antuniassi. O especialista sabe do que está falando. Professor titular da Faculdade de Ciências Agronômicas da Universidade Estadual Paulista (Unesp), o pesquisador é uma das maiores autoridades no que diz respeito à aplicação aérea. O docente fala de forma racional e desapaixonada, apegado a fatos e estudos científicos. E garante: se o operador adotar todos os protocolos, os riscos são mínimos. “Dentro do aspecto técnico, não existe motivo para proibir a aplicação aérea”, aponta.

Leia a entrevista completa:

Boletim Informativo: Quais as garantias que temos de que a aplicação de agroquímicos por via aérea é segura tanto para o produtor rural quanto para a comunidade?

Ulisses Antuniassi: A aplicação aérea é uma técnica de pulverização como qualquer outra, seja aplicação terrestre ou cos tal. Para que um pacote de uso seguro seja aprovado pelos órgãos reguladores, como Anac [Agência Nacional de Aviação Civil], Ibama e o Ministério da Agricultura, tem que passar por uma série de escrutínios. Ele é avaliado. Se na bula de um produto tem a aplicação aérea como uma das modalidades aprovadas, é porque houve uma avaliação de que essa aplicação representa uma opção segura para o ambiente, para as pessoas que fazem a aplicação. Do ponto de vista legal, não existe maior ou menor risco, desde que você trabalhe dentro do conceito de boas práticas.

Que técnicas ou mecanismos nós temos, hoje, para minimizar a deriva, para que ela se restrinja à faixa que é permitida por lei?

Tanto a aplicação aérea quanto a aplicação terrestre, quando ocorre dentro do conceito de boas práticas, deve ter como fundamento a chamada técnicas de redução de deriva. Por exemplo, você usar um espectro de gotas que gere menos risco, fazer aplicação com condições meteorológicas adequadas, o manejo correto da faixa de deposição, da altura de voo, da direção do vento. Todos esses são elementos que o responsável pode ajustar na aplicação para que se tenha menos risco. Se você respeita esses parâmetros técnicos, ambientais e legais, então a técnica reduz risco de deriva.

Ou seja, se o aplicador seguir esses protocolos está garantida a segurança no processo de aplicação?

Com certeza! É por isso que se tem autorização para usar essas técnicas. Nada é aprovado sem passar por uma avaliação de risco. A gente tem o Ministério da Agricultura para a questão agronômica, o Ibama para a questão ambiental e a Anvisa para a questão ocupacional do operador. Essas três instâncias regulatórias fazem a gestão desse risco e definem o que pode e o que não pode fazer. Se respeitar isso e o conceito de boas práticas e a legislação, temos um pacote tecnológico cujo risco é conhecido, e que está dentro do parâmetro considerado seguro pelas entidades que fazem a avaliação.

A aplicação aérea serve para qualquer tipo de lavoura? Como se faz essa análise para se definir a modalidade mais indicada?

A gente tem que avaliar dois aspectos. Um deles é o legal, ou seja, tem que ter a modalidade de aplicação aérea aprovada na bula do produto. O segundo passo é avaliar o ponto de vista operacional: observam-se o tamanho das áreas, o formato, o entorno, os vizinhos, a logística, a distâncias das pistas, todo o aspecto relacionado à parte geográfica e operacional. Às vezes, é uma área muito pequena em que não vale a pena usar o avião, porque ficaria muito caro. Por fim, o aspecto agronômico que resulta na opção por uma técnica ou por outra. Isso depende da praga, da doença ou da planta daninha, das condições ambientais, da condição da lavoura. No caso da soja, por exemplo, os agricultores preferem fazer as aplicações iniciais com máquina terrestre, porque a cultura está com um porte mais baixo. E as aplicações iniciais incluem herbicidas, que não estão autorizados a fazer aplicação aérea. Mas no final da safra, quando a soja já está bastante fechada, os agricultores de médio e grande portes preferem a aplicação por avião para não ter a máquina no campo, provocando dano mecânico à lavoura.

Se seguindo os protocolos a aplicação é segura, por que alguns setores são tão resistentes à técnica?

A gente tem um problema mais político do que técnico. Na maior parte das vezes, os questionamentos não são contra a aplicação aérea, mas quanto ao modelo de uso do produto fitossanitário. Eu já participei de diversas reuniões, audiências públicas, já conversei com deputados, com vereadores… e a maior parte das vezes o que se quer não é proibir o avião, é proibir o defensivo. E a aplicação aérea é colocada como um ícone. Usam o avião como exemplo do que tem de ser combatido. O pano de fundo é contra o modelo que usa agrotóxico. É um discurso político, não técnico. Dentro do aspecto técnico, não existe motivo para proibir a aplicação aérea.

Seria possível imaginarmos que a agricultura do país chegasse ao patamar em que está hoje, sem que houvesse aplicação aérea?

Seria muito difícil. O agronegócio tem, hoje, uma importância muito grande à estrutura econômica do país. É o que gera superávit do PIB e que garante geração de renda. O agronegócio é a cereja do bolo da economia do país. Do ponto de vista estrutural e econômico, o que dá de fato lucro dentro do agronegócio é a produção em larga escala das grandes commodities, das grandes culturas. Se você falar de algodão, soja, milho e cana-de-açúcar e de alguns itens da fruticultura, é impossível produzir sem você usar defensivos em larga escala. Aí, fica impossível produzir sem avião.

Um exemplo: a cultura da cana-de-açúcar, tanto pelo tamanho das áreas, quanto por conta de depois de uma certa etapa de desenvolvimento ficar com mais de dois metros de altura, não tem outro método que se possa fazer a aplicação que não o avião. A cultura da cana é dependente da aplicação aérea. Além disso, tem o timming da aplicação. A gente vive em um país tropical, com incidência de pragas e doenças de altíssima severidade, que você precisa tratar com muita rapidez. Se você não tratar muito rápido, perde a corrida para o fungo, para o inseto, para as lagartas, para os percevejos. O avião é indispensável porque trata muito mais rápido do que qualquer método terrestre. Todos os grandes países produtores de commodities são dependentes da aplicação área. São os países onde a aplicação aérea é mais utilizada.

Título da Postagem: Entrevista: “É impossível produzir em larga escala sem aplicação aérea”

imprensa@faep.com.br