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Data da Publicação: 25/09/2019 - 08h29
Postado em Destaques, Notícias

25/09/2019 08h29 - Postado em Destaques, Notícias

Perfil: Harry Françóia, o multiplicador de sindicatos

Servidor da FAEP por duas décadas participou da criação de mais de 130 entidades, além de testemunhar o fortalecimento da representatividade do setor

Por Felippe Aníbal

Por duas décadas, a vida de Harry Françóia se confundiu com a história do sindicalismo rural do Paraná. De 1967 a 1988, o hoje advogado tributarista integrou os quadros da FAEP, onde exerceu diversos postos e funções. Mais do que ter sido testemunha ocular da evolução da rede de defesa dos agricultores e pecuaristas, Harry teve participação decisiva na transformação de associações em sindicatos rurais em todo o Estado e na fundação de unidades sindicais em munícipios em que os produtores sequer estavam organizados. Essa expansão teve relação direta com o fortalecimento da agropecuária paranaense.

“Eu ajudei a criar mais de 130 sindicatos. Se você procurar nas atas de fundação, vai encontrar meu nome”, diz Harry, por detrás da mesa em seu escritório, no Alto da Glória, em Curitiba. “Quando começamos este trabalho no fim da década de 1960, tínhamos cerca de 35 sindicatos. Em dez anos, chegamos a 165. Isso, em uma época que o Paraná tinha em torno de 235 municípios”, recorda.

A sua entrada na FAEP se deu quase que por acaso. Em 1967, Harry era um rapaz de 22 anos que morava em Santo Antônio da Platina, no Norte Pioneiro. Andava “tristão” porque sua namorada havia acabado de falecer, aos 19 anos, em decorrência de uma doença cardíaca. Para ocupar a cabeça, aceitou o convite do presidente do sindicato rural local, Fernando Patriani, que iria a Curitiba, para participar de uma reunião na Federação. Assim, a bordo de um fusca “Pé de Boi”, Harry embarcou em uma viagem que mudaria sua vida.

“O Fernando era irmão do Paulo Patriani, presidente da FAEP. Eu me interessei pelo sistema sindical, em saber como os sindicatos funcionam. Aí, o Paulo me falou: ‘Você não quer vir trabalhar aqui, comigo?’. Como eu só tinha o curso primário, teria chance de estudar, de crescer. Eu aceitei. Comecei como motorista da Federação”, relembra Harry.

Sindicatos pelo interior

Por um ano, Harry permaneceu ao volante do fusca “Pé de Boi” da FAEP, dirigindo para o presidente não só em Curitiba, mas, principalmente, em viagens pelo interior do Paraná. Logo em seguida, o chofer foi promovido a auxiliar administrativo do Departamento de Administração. No novo posto, continuou a singrar as estradas do Estado, com o colega Gilceu Nilo de Almeida, com a missão de fazer com que as associações rurais se adequassem à lei, se tornando sindicatos rurais. Apesar da nova função, Harry permaneceu à boleia e jamais se esqueceu do automóvel, da cor azul-pastel e de placa AC 7345.

A transformação das associações em sindicatos rurais era uma exigência do governo militar, como forma de regulamentar a representatividade dos produtores e de manter o controle sobre os gastos das entidades. Por isso, o processo de criação dos sindicatos não era dos mais fáceis. Segundo Harry, havia muita resistência, principalmente porque as associações não viam com bons olhos a obrigação de prestar contas ao Ministério do Trabalho e Emprego (MTE) e ter suas eleições controladas pelo Ministério Público do Trabalho (MPT). Com bastante jogo de cintura e com um perfil conciliador, Harry foi determinante neste trabalho de convencimento, apostando sempre em informação.

“A gente encontrava muita resistência, porque as associações tinham autonomia financeira e não queriam passar a ser fiscalizadas pelo regime militar. Mas era a lei. Cabia a nós, da FAEP, fazer essa explicação e conduzir essa adequação”, observa Harry.

As incursões da FAEP ao interior também visavam incentivar a fundação de sindicatos onde sequer haviam associações. Os funcionários da Federação mobilizavam produtores e promoviam assembleias, em que era eleita uma junta governativa – formada por três líderes – e estabelecido o estatuto. Harry voltava com a documentação e a protocolava na delegacia do MTE, em Curitiba. A partir de então, o processo era analisado pelo Ministério, a quem cabia reconhecer oficialmente a criação do sindicato.

Em geral, essas primeiras assembleias contavam com a presença de 30 ou 40 produtores. Mas algumas reuniões para criação de sindicatos se tornaram históricas, como a de fundação do Sindicato Rural de Francisco Beltrão, no Sudoeste do Paraná, que teve a participação de 1.160 produtores rurais. A unidade sindical seria presidida por Nelson Meurer, que, anos depois, viria a se eleger deputado federal.

“Para a efetivação do sindicato, o Ministério fazia uma verificação rigorosíssima de todo o processo. Faziam um pente-fino na vida de cada líder sindical, olhavam a vida pregressa, verificavam documento por documento, desde a ata às assinaturas. Às vezes, a gente precisava voltar três, quatro vezes ao município, para deixar tudo acertado”, conta Harry. “A gestão do ministro Jarbas Passarinho foi a em que mais sindicatos foram reconhecidos”, acrescenta.

Como é de se supor, as viagens não eram das mais fáceis. De Curitiba a Guaíra, por exemplo, gastavam-se 15 horas, por estradas de terra. “A gente chegava à cidade de destino e tinha que trocar de roupa, de tanta poeira”, diz. As histórias deste período têm ares de odisseia, em jornadas sob chuva, lama e mesmo em finais de semana. Em uma dessas, Harry teve que dormir na estrada, no banco do fusca, porque a via estava interditada por um caminhão que atolou, atravessado na pista.

“Eu estava indo para Toledo e tinha chovido muito. Era a estrada e floresta nos dois lados. Só consegui chegar ao sindicato no dia seguinte e fui direto para a assembleia, com aquela cara de sono”, rememora. “Só no governo do Jaime Canet que a estrutura melhorou. O Paraná teve 4 mil quilômetros de estradas abertas, em anti-pó [pavimentação com fina camada de asfalto]”, acrescenta.

Também por este período, Harry se apaixonou por fuscas. Hoje, tem seis carros deste modelo, entre os quais, um “Pé de Boi”. Com o passar do tempo, o hobby se estendeu para outros automóveis, o que fez com que o advogado se tornasse um aficionado por motores. Foi diretor do BMW Clube, tem carros e motocicletas de altas cilindradas da marca e pilota até aviões.

Quatro presidentes

A permanência de Harry na FAEP passou pela gestão de quatro presidentes. No fim de 1972, chegaram os rumores de que o governo federal queria colocar um militar para comandar a Federação. Após um período de transição entre janeiro e março de 1973 – quando a entidade foi presidida por Ubilar Guerra Lobo –, o indicado para o cargo foi o coronel Mário Stadler de Souza, que também era produtor rural no interior do Paraná. Harry teve um ótimo relacionamento com o novo presidente da FAEP, que deu continuidade ao trabalho de fortalecimento da representatividade da agropecuária.

“O coronel Mário era uma pessoa muito aberta, comunicativa, bastante educado e simpático”, recorda.

Um dos pontos decisivos dessa época foi o II Plano Nacional de Desenvolvimento (PND), lançado pelo governo federal, que tinha por objetivo alavancar a produção brasileira, em todos os setores. A iniciativa contava com um projeto chamado “Capacitação do Produtor Rural”, que ajudava o agropecuarista a organizar seu negócio – desde o planejamento à colheita. As ações incluíam, inclusive, alguns cursos. “Esse projeto ensinava o negócio a ser sustentável. Esse plano foi o embrião do SENAR-PR”, define.

No fim da década de 1970, Harry soube que havia 26 fuscas em estado de sucateamento nos pátios do governo do Paraná. Autorizado por Stadler de Souza, o funcionário da FAEP negociou uma parceria com a Secretaria de Estado da Agricultura. Os automóveis foram reformados e cedidos a sindicatos rurais do interior. “Ferrugem, os carros tinham aos montes. Entretanto, tinham boas possibilidades de servir para trabalhos de curtas distâncias. Alguns, a própria FAEP mandou fazer revisão”, lembra.

De motorista a advogado

Foi na gestão de Stadler de Souza que Harry passou a ser estimulado a prestar vestibular. O principal incentivador foi o advogado Ostoja Roguski, então chefe do Departamento Jurídico da FAEP. Encorajado pelos colegas, Harry cursou o Madureza Ginasial – uma espécie de supletivo –, fez o científico e, em seguida, prestou vestibular. Aprovado na tradicional Faculdade de Direito de Curitiba, começou o curso em 1978.

“Como eu estava desenvolvendo aquele trabalho de criação de sindicatos, o doutor Ostoja Roguski achava que eu tinha muita habilidade para negociar. E eu tinha mesmo. Eu falava a linguagem deles. Não tinha diferença. Por isso que deu certo”, apontou.

Harry se formou em 1982 e, de cara, foi nomeado chefe do Departamento Jurídico da FAEP. No novo posto, já teve uma missão difícil: atendeu a implantação do dissídio coletivo de trabalho – ajuizamento das reivindicações dos trabalhadores rurais perante o Tribunal Regional do Trabalho. Ali, o advogado pôde exercer toda a habilidade que havia desenvolvido em outros setores da Federação. “Eu fiquei expert naquilo”, relembra.

Em outro momento memorável, coube a Harry organizar uma recepção de produtores e trabalhadores rurais ao então presidente da república, João Baptista Figueiredo. Os agropecuaristas do Estado lotaram a tradicional Sociedade Dom Pedro II, o que fez com que o encontro fosse um sucesso. Uma semana depois, o advogado da FAEP esteve no Palácio do Planalto, em Brasília, onde Figueiredo lhe confidenciou as impressões que teve da receptividade.

“Ele adorou a reunião e a articulação dos produtores. Ele participou em vários encontros deste tipo em todo o Brasil. Sabe por que ele fez isso? Para ver o nível de organização da sociedade, saber se estava preparada para a abertura política. Ele queria saber se os militares podiam, mesmo, entregar o poder. Veja você a importância que o sindicalismo tem: servia de referência a um presidente”, diz. “Com a abertura política, a Federação passou a ter um papel ainda mais reivindicatório, como tem hoje”, opina.

Em 1988, Harry deixou os quadros da FAEP, na gestão de Paulo Carneiro. Passou, então, a se dedicar ao direito tributário. Hoje, aos 74 anos, o advogado continua na ativa. Tem quatro filhos, dois dos quais também seguiram o caminho do direito e trabalham em seu escritório. Com memória invejável, relembra com consideração dos tempos de Federação e enumera pessoas que foram importantíssimas à agropecuária, entre os quais, os saudosos Nelson Teodoro de Oliveira e João Luiz Biscaia, falecidos recentemente. “A FAEP fez parte da minha história. Entrei como motorista e saí como advogado. Também posso dizer que dei minha contribuição. Vi, de perto, o crescimento da Federação”, conclui.

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