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Data da Publicação: 21/05/2019 - 11h58
Postado em Destaques, Feijão, Grãos, Notícias

21/05/2019 11h58 - Postado em Destaques, Feijão, Grãos, Notícias

Cadeia do feijão enfrenta desafios adversos do plantio à mesa

Na década de 1970 o consumo era de 25 quilos per capita/ano, contra 15 quilos atualmente. Na contramão, exigência por qualidade do alimento só aumenta

Apesar de o feijão continuar como item obrigatório na culinária do dia a dia dos brasileiros, o grão já teve mais protagonismo na mesa. Se na década de 1970 o consumo no país batia os 25 quilos per capita ao ano, hoje caiu para perto dos 15 quilos, conforme estimativa da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab). A perda na média geral foi, em parte, compensada pelo aumento da população. Hoje, os principais desafios são promover a retomada do crescimento desse consumo per capita, para mexer na lei da oferta e demanda, e melhorar a qualidade da produção.

O feijão e a sua cadeia foram o centro de discussão da iniciativa “Do Campo à Mesa” que promoveu um panorama da produção, comercialização, industrialização e história do consumo do alimento. O evento realizado no dia 20 de maio, em Carambeí, nos Campos Gerais, foi organizado pelo Sistema FAEP/SENAR-PR, Cooperativa Frísia e multinacional Syngenta. Cerca de 50 pessoas, entre técnicos, representantes de entidades governamentais, produtores e lideranças rurais estiveram presentes e puderam interagir com os palestrantes: presidente da Frísia, Renato Greidanus; gerente de negócios industriais da Frísia, Estefano Stemmer; produtor rural Geraldo Slob; coordenador do Departamento Técnico Econômico da FAEP, Jefrey Albers (foto abaixo); e coordenador de Cultura no Parque Histórico de Carambeí, Felipe Pedroso.

Na rotina de trabalho de Estefano Stemmer, gerente de negócios industriais da Cooperativa Frísia, em Carambeí, nos Campos Gerais, é perceptível como a exigência por qualidade tem aumentado nos últimos anos. “Hoje, nos nossos parques industriais, os clientes não admitem qualquer indício de contaminações físicas, químicas e biológicas. Temos de ter um controle rigoroso. E para isso, não basta ter boas práticas no processamento. Para ter qualidade é preciso investir em cada elo do setor, da produção até o produto chegar no prato”, avalia.

Nesse quesito, um dos principais desafios está no fato de que a cadeia do feijão é bem menor que as culturas majoritárias, como soja e milho. Para se ter ideia, o Paraná produziu na safra 2017/18 em torno de 600 mil toneladas da leguminosa, contra 19,1 milhões de toneladas de soja. “Em anos em que a produção de feijão tem maior qualidade, as empacotadoras vêm no caminhão verificar o produto recém-colhido e levam direto para a indústria. Quando não tem tanta qualidade, o alimento não sai com essa velocidade e o produtor acaba entregando aos armazéns locais. Isso dificulta muito os investimentos e planejamento de recebimento de feijão na nossa região”, complementa Stemmer.

O produtor Geraldo Slob planta feijão há mais 30 anos, experiência que permite ratifica a posição do diretor da Frísia. O agricultor reflete ainda o carinho que os agropecuaristas que se dedicam ao grão têm com a cultura, tão presente nos pratos dos brasileiros. “Eu vivi a evolução, do tempo de arrancar feijão até colher com colheitadeiras grandes e eficientes. O feijão é um cultivo que necessita muito mais atenção, mais cuidado. O produtor precisa tratar a área quase como uma horta. Na hora de colher, minha esposa diz: ‘traga uma panelada’. Confiem nos produtos que saem das nossas lavouras, assim como eu confio para levar um feijão novo para a mesa da minha família”, aconselha Slob.

Profissionalização

Para o pesquisador Jose Luiz Viana de Carvalho, da Embrapa Arroz e Feijão, é necessário elevar o feijão ao posto de cultura com mais cuidados, da lavoura até a comercialização. “O Brasil está muito bem servido do ponto de vista de cultivares disponíveis, com bons índices agronômicos e tolerância às principais doenças. Como Embrapa, é preciso agora haver um passo para que o feijão se torne uma commodity, que tenha uma assistência técnica de qualidade e que os produtores possam apostar na diversificação como uma garantia maior de vender melhor suas safras”, pontua.

Nesse sentido, o coordenador do Departamento Técnico Econômico da FAEP, Jefrey Albers, revela o tamanho da importância do feijão para o Paraná. Afinal, 329 dos 399 municípios do Estado têm alguma produção do alimento (veja o gráfico), em boa parte para subsistência, com produções comerciais de grande escala principalmente nos Campos Gerais, seguidos pelas regiões Norte e Sudoeste. “Num planejamento a longo prazo, percebe-se que o feijão é uma cultura interessante ao produtor. O preço está muito vinculado à oferta. Uma das possibilidades é investir em mais variedades e se destacar no quesito qualidade, uma exigência cada vez mais evidente dos mercados nacional e internacional”, explica.

Feijão: uma relação histórica

O feijão é possivelmente o alimento mais antigo a ser cultivado pelos seres humanos, segundo o historiador do Parque Histórico de Carambeí, Felipe Pedroso (foto acima). “Há indícios de que os soldados de Troia, conhecidos pela sua coragem e força, eram alimentados com feijão. Os gregos de Atenas, por sua vez, usavam feijões nas votações realizadas, os mais claros para dizer ‘sim’ às questões debatidas e os mais escuros para ‘não’”, conta. “No mundo medieval, também, há indícios de que os feijões estavam presentes em guisados e outros preparos”, completa.

Pedroso conta que no Brasil já existiam variedades de feijão antes da chegada dos portugueses. Os europeus inclusive levaram essas variedades daqui para serem introduzidas à dieta do continente. “É um alimento praticamente universal. Cada cultura faz sua adaptação, mas é consumido no mundo inteiro. O alimento é cultura, é história, é identidade, ele rege a nossa vida. No Brasil, por exemplo, temos uma forma carinhosa de se referir ao feijão: é o ‘meu feijão’, que não existe em nenhum restaurante, só existe na ‘minha casa’”, reflete.

A relação da região dos Campos Gerais com o feijão é bem mais antiga do que a história recente de destaque como local de cultivo comercial, como revela o historiador. “Quando os holandeses chegaram aqui, havia pouca disponibilidade de alimentos, mas um deles era o feijão. Apesar de os imigrantes não terem o hábito de consumirem feijão em seu país de origem, aqui foram se adaptando e incorporando o alimento à dieta, até que o feijão passou a ser um dos protagonistas na mesa das famílias que viviam e que vivem aqui até hoje”, lembra.

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