Produções recordes diminuem rendimentos na soja

Tânia Moreira, Economista do DTE/FAEP

O Departamento de Agricultura dos Estados Unidos (USDA) divulgou em 31 de março o relatório de intenção de plantio para a safra americana 2015/16. Segundo dados do USDA, os americanos devem plantar na nova safra, a maior área de soja da história no país. A projeção é de 34,2 milhões de hectares com aumento de área em pelo menos 21 dos 31 estados de maior produção nos Estados Unidos.

A área de plantio maior poderia resultar na possibilidade de novo recorde de produção nos Estados Unidos. Na safra 2014/15 foram cultivados 33,87 milhões de hectares que resultaram na produção de 108,01 milhões de toneladas, ambos os números recordes históricos.

Considerando os dados históricos, as perspectivas para a safra 2014/15 no Brasil não ficam atrás. Na safra atual, a produção brasileira de soja deve totalizar 94,2 milhões de toneladas, conforme o 7º levantamento da Companhia Nacional do Abastecimento (Conab), que revisou a produção brasileira em 1,02 milhão de toneladas a mais em relação ao levantamento anterior, marcando um novo recorde histórico na produção brasileira de soja.

A produção argentina de soja vem marcando recordes também, sendo revisada pelo USDA, em abril, em 1 milhão de toneladas a mais, passando para 57 milhões de toneladas, em função de produtividades elevadas.

A perspectiva da Bolsa de Cereales da Argentina é que a produção chegue a 58,5 milhões de toneladas, com uma produtividade de até 3.820 kg/hectare.

Para a safra 2015/16 o USDA já demonstrou algumas expectativas, projetando uma redução de área na próxima safra brasileira passando na safra atual de 31,4 para 31 milhões de hectares na próxima safra. A redução seria explicada por menores preços globais para oleaginosa, pelos desafios econômicos no Brasil e pela elevação da taxa de juros, de forma que isso atuaria reduzindo o interesse no aumento de área, apesar do USDA não descartar aumentos de área nos estados do Maranhão, Piauí, Tocantins e Bahia, onde o preço ainda barato da terra continuaria a atrair os produtores. O aumento do custo de pelo menos 7%, conforme prevê o USDA, também deve reduzir a expansão de área para soja.

Ainda assim uma elevada produção brasileira seria mantida em torno de 94,5 milhões de toneladas segundo o USDA, podendo chegar a até 95,8 milhões de toneladas segundo a consultoria Agroconsult, em função de uso de maior tecnologia nas sementes.

A preocupação para o produtor brasileiro e para o produtor americano é a redução global dos preços dado uma recomposição de estoques, com safras maiores nos dois últimos anos, apesar de uma demanda mundial aquecida, que foi fomentada pelo crescimento da produção animal em 2014, e que deve continuar forte de acordo com as previsões do USDA, que espera continuidade do crescimento em 2015, com a produção animal beneficiando-se da redução dos preços dos grãos.

Para o USDA, de acordo com o último relatório de oferta e demanda publicado em 09 de abril, o intervalo de preços projetados para a soja na safra 2014/15 é de US$ 9,60 a US$ 10,60/bushel. Para safra 2015/16 o preço projetado é de US$ 9,00/bushel, segundo o Agricultural Outlook Forum, de fevereiro.

Além das estimativas de produção e estoques elevados, as atenções também seguem voltadas para a força do câmbio em manter-se em patamares próximos de R$ 3,00. Na última semana de abril o câmbio foi inferior aos R$ 3,00, com dados da economia americana mostrando uma recuperação mais lenta que o necessário para garantir uma alta de juros acelerada nos Estados Unidos.

A valorização do dólar, acentuando-se, desde o início da comercialização da safra, com o câmbio ficando acima de R$ 3,00 em muitos momentos é o que tem garantido os diferenciais para os preços internos no Brasil. Em março, por exemplo, enquanto o contrato futuro de maio da soja na CBOT perdeu 5,16% o dólar acumulou ganho de 7,6%.

No mês de abril o preço médio da CBOT se manteve entre US$ 9,48 a US$ 9,89/bushel, com ganho de 0,61%, enquanto o dólar passou a se desvalorizar no final do mês, acumulando perda de 5,6% no mês de abril. No mercado interno, o preço médio recebido pelo produtor perdeu cerca de 4,25%.

No Brasil, os dados da SEAB para o Paraná mostram que a colheita registrou atraso, refletindo inclusive no percentual comercializado no Estado, mas que para o mês de abril, os negócios foram acelerados, com a colheita registrando percentual de 100%. No mês de abril o percentual de comercialização da safra de soja foi de 48%, crescendo em relação aos 31% do mês anterior. Em março, o percentual de 31% contrastava com os 41% comercializados na safra 13/14 no mesmo período.

No Mato Grosso a situação não foi diferente, registrando-se também um atraso na comercialização, que no mês de abril já atingiu 68,2% da safra, com avanço de 9,1% em relação ao mês anterior, a partir de dados do Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária (IMEA).

Se não houver mudanças climáticas significativas, ou outros fatores que possam alterar o quadro atual de recomposição de estoques mundiais, a safra 2015/16 será de cautela tanto para os produtores brasileiros quanto para os produtores americanos, com preços pressionados frente aos elevados custos de produção.

No Brasil os produtores terão que administrar o risco de comprar insumos com o um dólar mais valorizado, que pode ser diferente no momento da comercialização dos produtos, com taxas de juros maiores e sem uma assistência para garantia de renda, como acontece, por exemplo, nos Estados Unidos.

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