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Data da Publicação: 22/02/2012 - 12h00
Postado em Notícias

22/02/2012 12h00 - Postado em Notícias

Seca no Sul gera perdas e frustração de produtores

A ocorrência novamente do fenômeno La Niña trouxe um cenário de preocupação e prejuízo para os produtores rurais do Rio Grande do Sul, comprometendo parte das colheitas de milho, soja e arroz. A cultura mais afetada é a do milho cujas perdas ultrapassam os 46,63%, conforme levantamento da estiagem divulgado no final de janeiro pela […]

A ocorrência novamente do fenômeno La Niña trouxe um cenário de preocupação e prejuízo para os produtores rurais do Rio Grande do Sul, comprometendo parte das colheitas de milho, soja e arroz. A cultura mais afetada é a do milho cujas perdas ultrapassam os 46,63%, conforme levantamento da estiagem divulgado no final de janeiro pela Emater. Na safra passada, foram colhidas 5,7 milhões de toneladas e a expectativa atual cotada em pouco mais de 3 milhões de toneladas. "São dados consolidados e há pouquíssima chance de que haja alguma mudança nesse quadro", afirmou o gerente técnico estadual da Emater, Dulphe Pinheiro Machado Neto. Conforme estimativas mais pessimistas, em algumas lavouras a quebra pode ser muito maior. "A quebra de safra oscila entre 60% a 80%, dependendo da região do Estado. No Noroeste gaúcho, por exemplo, em muitas áreas as perdas são totais. Depende muito da tecnologia usada pelos produtores", observou o professor da Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul (Unijuí) Argemiro Luís Brum, especialista em Economia Internacional.

A estiagem frustrou fortemente a expectativa inicial de uma excelente safra, que chegou a ser projetada como a maior da história, conforme lembra o consultor da Safras e Mercado, Paulo Molinari. "Já havia até bons negócios fechados na exportação do milho, algo em torno de 300 mil a 400 mil toneladas. Mas tivemos mais um ano de La Niña que acabou afetando o Estado de forma agressiva", lamentou Molinari.

A escassez de chuvas tem efeito também na comercialização do milho. "Os preços já dispararam, ultrapassando os R$ 30 por saca no Rio Grande do Sul. O Estado terá que importar mais do que normalmente e o limite de preços será o valor do produto importado posto aqui", comentou o professor Brum, ao destacar que também na Argentina e Paraguai houve quebras na produção do cereal.
Perdas

Os preços do milho podem ter reflexos diretos na safra 2012/2013, com possível aumento de área plantada com o cereal. "O próximo plantio vai depender de como os preços estiverem ao longo desse semestre e na época da decisão do plantio lá no segundo semestre", acrescentou Molinari.

Neto, da Emater, diz que existe a esperança de que o milho plantado no tarde, na região administrativa da Emater de Caxias do Sul, possa obter melhores resultados, mas nada que possa reverter o quadro de perdas já estabelecido. "A região de Caxias do Sul é a que apresenta menor quebra em produtividade, de 13,73%, ao comparar a expectativa inicial da Emater de 5.469 quilos por hectare, com a expectativa pós-estiagem de 4.718 quilos. No que diz respeito à produtividade no geral do Estado, a redução foi de 49,19%, ao se traçar um comparativo entre a safra passada, quando os produtores obtiveram 5.253 quilos por hectare e a atual, com 2.669 quilos.

A lavoura da soja também sofreu bastante com a seca, porém, especialistas avaliam que ainda há possibilidades de alguma recuperação. No entanto, é preciso considerar que já se contabilizam perdas ao redor de 31,66%, caindo de 11,7 milhões de toneladas na safra passada para pouco mais de 8 milhões de toneladas no período atual, conforme levantamento da Emater.
"Esse percentual vai crescendo na medida em que as chuvas continuam relativamente raras em muitas regiões", adverte o professor da Unijuí.
Preços

Para a próxima safra, Brum acredita que possa haver alguma ampliação da área plantada, devido à substituição do milho, que padeceu com a estiagem. "O milho havia ganhado área neste ano e a seca estragou os planos dos produtores. Como o cereal é muito mais sensível à seca, os agricultores poderão apostar um pouco mais na oleaginosa novamente."

Ele ressalva, no entanto, que a decisão irá depender dos preços existentes e da previsão meteorológica. O professor afirma que como a soja depende muito da Bolsa de Chicago e a quebra está localizada no Oeste catarinense, um pouco no Paraná e, essencialmente, no Rio Grande do Sul. Os preços não deverão subir muito no curto prazo, embora já tenham registrado uma certa recuperação devido ao fato de Chicago ter refletido a seca do sul do continente norte-americano, passando a trabalhar em torno de US$ 12,30 por bushel no início de fevereiro. "Hoje, o valor médio de balcão, ao redor de R$ 43 a saca, é um excelente preço. Todavia, em qualquer caso, não há preço que pague uma frustração de safra, especialmente com as perdas que o milho e a soja registram", opinou Brum.

Os efeitos do La Niña acarretarão num aumento significativo nos custos de produção. "Irão subir e muito, particularmente, para os produtores de milho e soja, já que as perdas são expressivas. A rentabilidade ficou completamente comprometida e o conjunto médio de nossos produtores vai amargar importantes prejuízos", avaliou Brum.

O professor da Unijuí lembra que as secas têm ocorrido cada vez com mais frequência e que é urgente uma ação de prevenção. "Desde as secas dos anos de 1990 já se fala nisso e pouca coisa evoluiu até hoje. Os produtores, suas cooperativas e sindicatos, devem partir para iniciativas próprias urgentes visando o armazenamento de água, e não esperar pelo governo", defendeu.

O engenheiro agrônomo da Emater/RS, Alencar Paulo Rugeri, informou que em termos de produtividade, a oleaginosa despencou de 2.876 quilos por hectare na safra 2010/2011 para a expectativa atual de 1.948 quilos por hectare, o que representa quebra de 32,27%. "As perdas estão consolidadas e nos trazem algumas lições que devem ser levadas em conta para a próxima safra", apontou o especialista em soja da Emater. Segundo ele, a questão do escalonamento do plantio é importantíssima para evitar perdas maiores, caso o Estado volte a enfrentar novo período de estiagem no próximo ano. Plantas de ciclo precoce são as que costumam ter mais perdas e as de ciclo tardio tem quebra minimizada em épocas de seca intensa. "É preciso ainda pensar na diversificação das culturas na propriedade, não plantar apenas soja, mas também milho, girassol, canola, cuidar bem do solo, usar as cultivares recomendadas e plantar na época certa. A irrigação vem como coroamento desse sistema e de toda a técnica agronômica utilizada nele", ponderou Rugeri.
Arroz

Menos afetada pela estiagem por se tratar de uma cultura irrigada, a lavoura do arroz não terá uma quebra tão grande, mas deve registrar uma queda de 13% na produção, fechando a safra em 7,8 milhões de toneladas, conforme estimativa do analista de mercado Eduardo Aquiles, da Safras e Mercado.

No período de colheita, até abril, a tendência é de queda no preço, mas há a expectativa de que a partir de maio ocorra uma recuperação em relação a 2011. "Os preços este ano estarão acima dos praticados no ano passado, que chegaram a menos de R$ 20 a saca. Deverá recuar um pouco abaixo do mínimo no período de colheita e começar a recuperar na entressafra", avaliou Aquiles.

Fonte: Globo Rural Online -22/02/2012

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