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Data da Publicação: 10/01/2012 - 12h00
Postado em Notícias

10/01/2012 12h00 - Postado em Notícias

Pecuária tenta retomar exportação de carne

Depois de serem reduzidos a zero, embarques ao exterior dependem de mudanças na produção e na gestão da atividade

Mesmo com as incertezas relacionadas à demanda internacional e à ampliação do risco de aftosa no continente, o Paraná vai tentar retomar as exportações de carne bovina. O governo do estado e o setor produtivo confirmam para fevereiro o lançamento de um programa que promete uma "injeção de ânimo" no setor. Os objetivos são reorganizar a atividade, melhorar a qualidade da carne e garantir padrão na oferta, fatores que teriam causado a redução dos embarques com origem no estado a zero em outubro.

O fechamento da JBS Friboi de Maringá, há três meses, faz com que mesmo a carne de qualidade produzida pelos pecuaristas paranaenses seja destinada ao mercado interno. A empresa era a última que vinha exportando. Com sua transferência para Mato Grosso do Sul, os embarques do Paraná caíram um terço na comparação entre 2010 e 2011, para perto 13 mil toneladas. Agora, é preciso ampliar a oferta de carne bovina tipo exportação para atrair novas empresas licenciadas.

Essa retomada depende de uma nova linha de gestão, avalia o próprio setor, que terá de apostar em genética e cultivo de pastagens para alcançar estados como Mato Grosso e São Paulo. Na prática, os produtores rurais têm preferido o plantio de grãos e de cana de açúcar. Os produtores que permanecem na bovinocultura não estariam investindo o suficiente em sua atividade.

"O fator econômico desestimulou a pecuária. É preciso um novo sistema de gestão da produção", afirma Rogério Berger, agropecuarista e presidente da Comissão de Bovinocultura de Corte da Federação de Agricultura do Paraná (Faep).

A criação extensiva em que o pecuarista solta o boi no pasto e espera que o animal engorde estaria fadada a desaparecer. Para o presidente do Sindicato da Indústria de Carnes e Derivados do Paraná (Sindicarne-PR), Péricles Salazar, a pecuária de corte precisa ser administrada como uma empresa global para se tornar lucrativa e oferecer a qualidade exigida no exterior.

A integração pecuária-lavoura-floresta nas áreas onde existe apenas gado é a melhor forma de reestruturar o negócio, conforme os especialistas do Instituto Agronômico do Paraná (Iapar). Com lavouras de grãos, engorda de gado e cultivo de madeira, o produtor pode ampliar sua renda. "Quando há apenas uma atividade, é maior o risco de intempéries comprometerem a arrecadação", diz Daniel Perotto, pesquisador da área de melhoramento animal do Iapar.

Outra medida necessária é a adoção de raças mais produtivas. O ideal é que o animal engorde 900 gramas por dia, o que não ocorre na maior parte das fazendas de gado mestiço do Paraná.

"Independente do que se faça por aqui, o Paraná nunca será um grande produtor na quantidade. Mas podemos ganhar de outros mercados na qualidade, pois reunimos todas as condições necessárias", aponta Berner. Ele considera que, apesar do predomínio da agricultura, existe espaço para confinamentos e semiconfinamentos. Por enquanto, as propriedades que investem em genética e aproveitam de forma exemplar as terras disponívies ainda são consideradas exceção na pecuária.

Maior oferta promete atrair frigoríficos para o estado

A retomada da oferta de carne deve atrair novos frigoríficos habilitados a exportar para países da União Europeia para o Paraná e, de quebra, movimentar a economia. As instalações de empresas como o JBS Friboi de Maringá, fechado há três meses, pode ser reativadas.

"Se pudermos ampliar a pecuária, vamos atrair novamente as empresas do setor. Por enquanto, nosso rebanho é muito limitado", afirma Péricles Salazar, presidente do Sindicarne, que representa as indústrias do setor. "Basta se organizar que os frigoríficos voltam", complementa o agropecuarista Rogério Berger.

Atualmente, o Paraná não é autossuficiente na produção de carne de corte. Enquanto o consumo anual de carne bovina é de 350 mil toneladas, a produção é de apenas 312 mil toneladas. Fazendas que criam gado para cortes especiais na região de Curitiba mal dão conta da demanda de restaurantes instalados na capital, apesar da avaliação de que poderiam exportar a produção.

Existem iniciativas de melhoramento do rebanho. O Instituto Agronômico do Paraná (Iapar), por exemplo, trabalha no desenvolvimento da raça Purunã, resultado do cruzamento de diversas espécies, que reúne características consideradas ideais para as condições regionais de criação.

"[O Purunã] é resistente, não exige clima, ganha bom peso por dia e a carcaça atende às exigências de cobertura de gordura feitas pelos frigoríficos", diz o pesquisador do Iapar Daniel Perotto. Por enquanto, a raça é criada por cerca de 20 pecuaristas no estado. A previsão é que escala seja cada vez maior.

Desenvolvimento

Embarques fomentam serviços

Apesar de ser uma atividade que requer altos investimentos, a bovinocultura não é garantia de desenvolvimento social para a região. O município de Ortigueira, na Região Central, detém o maior rebanho de corte do estado, cerca de 145 mil das 6 milhões de cabeças do gado destinado ao corte – outros 3,3 milhões de animais são destinados para pecuária leiteira. A pecuária de corte é uma das principais atividades do município, líder nos índices relacionados à pobreza.

Porém, segundo o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), Ortigueira tem o pior Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) do Paraná: 0,620. Calculado pelo Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (Pnud) – o IDH varia de 0 a 1 e, quanto mais distante de 1, menos desenvolvida é considerada a cidade. O quadro está diretamente ligado a falta de oportunidades de trabalho.

De acordo com a Secretaria de Estado da Agricultura e do Abastecimento, 18 mil postos de trabalho podem ser abertos no Paraná até 2022 na cadeia da pecuária se houver adicional de 100 mil toneladas de carne na produção anual.

Dados

13 mil toneladas de carne bovina foram exportados pelo Paraná no ano passado – 4 mil a menos do que em 2010. Os embarques com origem no estado estão interrompidos desde outubro.

18 mil empregos podem ser gerados no Paraná na cadeia da pecuária se houver adicional de pelo menos 100 mil toneladas de carne na produção, conforme o governo estadual. A expectativa é que isso ocorra até 2022.

2 anos são necessários para que medidas de fomento à produção ampliem a oferta de carne de qualidade e com padrão. Esse é o tempo necessário para que um bezerro chegue à fase de abate.

Proteção contra a aftosa se tornou passo estratégico
José Rocher

O surto de aftosa identificado há uma semana no Paraguai não vai adiar o programa de estímulo à pecuária de corte no Paraná. Segundo o secretário estadual da Agricultura, Norberto Ortigara, a proposta de desenvolvimento será lançada em fevereiro e deve oferecer apoio técnico aos pecuaristas. O próprio reforço no controle sanitário deve integrar o programa, com a meta de tornar o estado livre da doença sem vacinação dentro de dois anos.

O presidente do Sindicarne, Péricles Salazar, tem opinião semelhante. Para ele, o risco representado pela aftosa não interfere no potencial do Paraná para exportar carne bovina. O clima e a disponibilidade de recursos públicos para investimento em áreas de pastagens degradadas são consideradas variáveis decisivas.

"Confio em nosso sistema de defesa. Não podemos voltar a ter uma crise com a de 2005 [última vez em que o estado notificou a ocorrência de aftosa em seu rebanho]. O índice de vacinação de 97% do total de 9,4 milhões de cabeças [atingido em novembro do ano passado] é muito bom", destaca.

Para se tornar área livre da aftosa em 2013, no entanto, o Paraná precisa ampliar a defesa sanitária, conforme o Ministério da Agricultura, Pecuária e Abastecimento (Mapa). O governo do estado informa estar planejando a contratação de mais de 300 técnicos.

Sem maior proteção, a suspensão da vacina é considera arriscada. O próprio histórico nacional de ocorrências da doença prova isso. Em abril de 2000, o Rio Grande do Sul conseguiu reconhecimento de área livre sem vacinação. Porém, menos de quatro meses depois, registrou 20 focos da doença. No ano seguinte, outros 29 focos.

Atualmente, além do Paraná, o estado gaúcho, Minas Gerais e Mato Grosso do Sul querem suspender a vacinação, de olho na ampliação das vendas ao exterior.

Fonte: Gazeta do Povo – Carlos Guimarães Filho

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